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O seu temperamento resoluto e frio, a sua transbordante vida interior e o seu ânimo de lutar contra os limites do desconhecido fizeram com que se sobrepusesse às dificuldades de uma nação demasiado pequena e de limitados recursos para a realização de tão grandioso projeto.
A sua grande temperança e o desinteresse que manifestava pela glória e pelos bens terrenos explicam as recusas às honras que de toda a parte o tentavam, tal era a fama do seu nome como combatente. Segundo o cronista Azurara, o papa Martinho V, o rei Henrique V da Inglaterra e o rei João II de Castela, assim como Segismundo, imperador da Alemanha, ofereceram-lhe o comando dos seus exércitos. Tudo em vão. Recusando riquezas e glória, D. Henrique, apesar de saber as dificuldades de ordem técnica, militar e econômica com que se debatiam os portugueses, não vacilou na marcha que o conduziria à realização do grande ideal da sua vida.
No seu recolhimento de Sagres, o guerreiro de outrora se empenhava dia e noite numa nova cruzada, mais mental, mais grandiosa: a luta contra uma Europa descrente que acabara por renunciar, desanimada e cética, à nova rota dos mares. Assim, sobrepondo a sua vocação marítima a todos os desejos temporais, não houve sombra terrena que lhe passasse pela mente. Virgem como um cavaleiro do Santo Graal, tornou-se frade de uma nova ordem: a cavalaria dos mares. A sua virilidade situava-se no cérebro, na idéia fixa, na vontade inquebrantável de transformar as superstições e as trevas de uma época em que o mundo via no oceano a noite eterna numa nova luz, num mar aberto ao influxo da civilização.
O interesse comercial nunca foi o motor impulsionador desse sublime empreendimento levado a cabo pelo Infante. A única preocupação de D. Henrique era a descoberta de novas terras, apoiada em objetivos científicos, espirituais e humanistas. Assim, sempre atento àqueles que se equivocavam quanto ao real sentido da sua obra, fazendo-a resvalar para objetivos meramente comerciais, conseguiu do rei D. Afonso V a promulgação do seguinte decreto: “Nenhuma frota ou caravela poderia navegar para além do Bojador sem autorização de D. Henrique”.
O Infante foi um sonhador, mas teve o mérito de viver para esse sonho. Sob o seu impulso entusiástico e persistente, a grande epopéia marítima abriu ao mundo novos mundos, permitiu o avanço das ciências e, o mais significativo, contribuiu definitivamente para a queda de uma Idade Média dividida e abalada pelas sucessivas crises de ordem religiosa, econômica e social.
D. Henrique, contrariamente ao cognome por que é conhecido, não foi um “navegador” no sentido literal da palavra, já que nunca participou em nenhuma das campanhas marítimas. Porém, o seu trabalho efetivo foi mais importante do que a navegação: consistiu em estabelecer planos, dirigir as expedições, procurar fundos monetários e fixar os próximos objetivos. Para isso, “refugiou-se” no extremo ocidental da Península, em Sagres, afastado do bulício da Corte. Chamou para junto de si os maiores cartógrafos e sábios, principalmente de Veneza, Gênova e Portugal. Às suas mãos chegara uma cópia do relato da fabulosa viagem de Marco Pólo pelo Oriente, assim como um mapa-múndi. Outro fato importante que influenciou a obra futura do Infante, foi a chegada a Portugal do cartógrafo judeu Jafuda Cresquez, da Ilha de Maiorca, que detinha praticamente todos os dados disponíveis na época relativos à Terra, entre os quais alguns sobre o Arquipélago dos Açores já descoberto precedentemente e esquecido mais tarde.
D. Henrique desencarnou em Sagres no ano de 1460 sem ter visto o seu sonho realizado. No entanto, isso pouco lhe importava, atendendo à gigantesca dimensão do plano que o possuía, para o qual a sua efêmera existência bem curta era. Os dias de glória viriam mais tarde para Portugal e para toda a Europa: primeiro com a dobragem do Cabo da Boa Esperança, promontório intransponível, onde a fúria dos dois oceanos, Índico e Atlântico, se abraçavam num redemoinho sem fim; aí, o terrível Netuno, erguendo com a força do seu tridente as águas espumosas do caótico desconhecido, vociferava sons inumanos. As vagas furiosas eram a manta com que se cobria o lúgubre Adamastor, esse gigante tenebroso nascido do temor e das águas agitadas pelo colérico deus dos mares e das dúvidas. Em segundo lugar, com a chegada à América e, em especial, ao Brasil, nome pelo qual são conhecidas as terras de Vera Cruz. Portugal tornou-se, assim, o primeiro império colonial.
Os frutos desse grande sonho foram colhidos pelos seus sucessores, perante uma Europa até então dividida, descrente e arrogante. Portugal, por meio da persistência e do método inteligente e organizado do Infante, abriu o caminho aos novos mundos, à esfericidade da Terra, ao combate contra a ignorância obscura da Idade Média. D. Henrique encarna tudo isto. O seu sonho do aparentemente impossível fez-se realidade.
O grande mérito que teve esse Príncipe solitário foi o de fazer o seu povo acreditar no sonho que o possuía. Por isto mesmo não viu o fim da sua obra, já que esta transcendia todos os fatores da humilde condição humana. O que impulsionou esse espírito genial, como impulsiona, aliás, todos os homens possuídos de gênio, não podem ter sido os fatores comuns que apenas alcançam os historiadores comuns. Não foi uma religião, nem a riqueza, nem a ciência que moveram o espírito ardente do Infante. Apenas a busca da transcendência humana, a vontade de ultrapassar os limites dos horizontes físicos, a luta sem tréguas contra a natureza indomável, o desafio a Poseidon, ao Adamastor, às dúvidas, aos medos, ao desconhecido. Tudo isto não morreu com a morte física de D. Henrique. Ele não necessitava nem ambicionava ver os frutos colhidos pelos futuros marinheiros, porque o seu Ideal era o que transporta os homens para fora do espaço-tempo. A sua visão enxergava bem mais longe do que a linha do horizonte e o seu ideal situava-se muito para além dos ciclos históricos, dos sucessos e fracassos, do súbito apogeu e da queda repentina do seu próprio povo. Ele tinha uma missão a cumprir e cumpriu-a. Era indiferente ao luxo e à miséria subjacentes ao erro e às fraquezas humanas, já que a sua tarefa consistia unicamente em facilitar a abertura de um novo ciclo na história da humanidade.
O resultado concreto das Descobertas cedo se fez sentir. Com as caravelas que, sem descanso, arribavam ao porto de Lisboa trazendo as especiarias da Índia, o ouro e as pedras preciosas do Brasil, os escravos negros da África, a capital dessa pequena metrópole tornou-se um grande centro cosmopolita em desusada atividade. Mercadores de toda a parte da Europa, sociedades marítimas e companhias coloniais pululavam por Lisboa inteira gerando um clima febril. A penúria causada pelo enfraquecimento geral da Europa e pelo esforço dispendido nas navegações cedeu o passo ao luxo e à ostentação; o trabalho transformou-se em ociosidade e a vida rural foi substituída pelo burgo, em que a sedução das riquezas atraía as populações. Portugal iria, em breve, pagar um pesado tributo pela fama e glória alcançados já que, oitenta anos mais tarde, num estado de debilidade total, perderia a sua independência a favor da Espanha.
Aspecto científico dos descobrimentos
Foi de Sagres, onde D. Henrique se estabelecera, que partiram as primeiras naus dos Descobrimentos. Não existiu aí uma Escola de navegação no seu aspecto mais científico, mas antes um centro de reunião no qual se estudava matemática, geografia, astronomia e ciências naturais. Todos os conhecimentos e as informações que se mostrassem proveitosos para a prossecução das viagens marítimas eram aí estudados. Por outro lado, as experiências colhidas nas diversas fases da navegação marítima, bem como as explorações efetuadas no interior das terras africanas onde se descobriram novas condições de vida e uma flora e fauna exóticas, eram observadas cientificamente em Sagres. Também foi ali que existiu o primeiro observatório astronômico português.
Se o domínio do oceano desconhecido se estendeu progressivamente sob a orientação atenta do Infante de Sagres, tal não foi apenas o resultado da audácia dos intrépidos marinheiros, mas também o fruto de aturados estudos náuticos e de uma assinalável inovação na arte de navegar. Com efeito, Portugal aproveitou antigos conhecimentos dos navegadores mediterrânicos para adaptar e desenvolver um novo tipo de barco: a caravela henriquina, de aparelho misto. Possuía velas quadrangulares para a navegação de vento em popa e velas latinas para navegar contra o vento, inovação que lhe permitiu resolver o problema da navegação em alto mar. Foi graças aos estudos realizados em Sagres sobre os ventos e as correntes marítimas que tais barcos surgiram e, nos dizeres do genovês Cadamosto, “as caravelas portuguesas eram as melhores que andavam no mar e, sendo bem providas de todo o necessário, deveriam poder navegar por toda a parte”. Efetivamente, a maior vantagem das caravelas portuguesas era que podiam navegar contra o vento, contrariamente aos navios estrangeiros. No aspecto científico, essa inovação teve um peso decisivo no êxito das assombrosas navegações que iriam, de certo modo, transformar a face do mundo.
D. Henrique foi a alma de um país de marinheiros, mas também um incansável lutador e um estrategista. Conta-nos Ramalho Ortigão que no momento em que a invasão muçulmana, comandada por Maomé II, penetrava na Hungria ameaçando a Europa inteira, “das costas de Portugal, do alto promontório de Sagres, um homem embebido no estudo dos astros e das correntes marítimas, cercado de livros, de cartas geográficas, de quadrantes e de astrolábios — o generoso Henrique — responde a Maomé invadindo a Ásia pelo extremo oposto dos seus domínios desguarnecidos. Vasco da Gama chegava por mar ao Oriente, os nossos expedicionários calcavam triunfalmente a terra maometana. Maomé então recuou e, fazendo refluir à pressa o seu exército para o interior do seu território, abandonou a conquista da Europa”.
O Infante, com menos de 45.000 homens, quebrara indiretamente, numa Europa enfraquecida pelas lutas intestinas, o ímpeto das hordas muçulmanas, preservando assim a civilização ocidental.
D. Henrique encarnou um momento histórico, uma etapa importante do seu povo, mas, acima disso, tornou-se uma figura de caráter essencialmente universalista porque a sua ação influiu decisivamente no novo rumo de uma humanidade titubeante. Aos seus marinheiros que tremiam ao defrontar as tempestades, aos exploradores por ele enviados ao interior do continente africano onde os perigos e as traições os assaltavam, a imagem desse homem sempre firme, sempre atento e em constante meditação inspirava-lhes confiança, dava-lhes novas forças, tão grande era a convicção e a fé que tinha no projeto para o qual fora destinado. Como disse Mário Gonçalves Viana, “sem o aparecimento destes homens que abarcam séculos e sugestionam as multidões, sem a existência destas vontades de ferro, para as quais não há impossíveis nem dificuldades, a História seria coisa bem diversa e as imensas multidões viveriam uma vida apagada e sem grandeza”.
Uma plêiade de grandes homens do mar e de grandes exploradores surgiram após a morte de D. Henrique. O grande Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, Vasco da Gama chegou à Índia e os Espanhóis e Portugueses descobriram a América.
Os homens comuns sonham por meio das figuras gigantescas da História e terminam, impulsionados pela força inquebrantável desses sonhos, a obra que sobrevive à morte de quem a iniciou.
Os grandes homens não morrem. A História é um contínuo devir pelo qual se animam os grandes espíritos que surgem e desaparecem, ateando na humanidade indecisa o fogo dos Ideais elevados, destruindo a ignorância e conduzindo-a rumo ao porto da União.
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