• 10 de julho de 2015

Um dos símbolos mais multifacetados representado ao longo de toda a história da humanidade, e o animal mais complexo que a imaginação humana já criou. Existe algo de misterioso nestes seres fantásticos. Vemos figuras de dinossauros extintos, mas não exaltam nossa fantasia com tanta força.

No subconsciente coletivo, algo perdura em relação a estes seres. É como se essa memória da Natureza conservasse em algum canto a essência e o significado simbólico destes seres, que certamente são reminiscências de algo existiu.
Tornamo-nos um pouco crianças quando imaginamos estes seres fantásticos; cativam-nos seus relatos, atraem nossa fantasia, chamam a atenção.
O dragão é nomeado em tantos lugares e épocas, que é quase impossível abranger todas suas lendas e referências sobre ele. O dragão, “drakón” em grego, é nos nossos dias, como um monstro mítico, representado numa infinidade de selos, escudos, pinturas e cerâmicas. Na realidade, – segundo Helena Blavatsky – é um extinto monstro pré-diluviano. Na antiga Babilônia, alude-se a ele como “escamoso”; e numa multidão de pedras preciosas está relacionado com o Tiamat, o mar. “O Dragão do Mar” é mencionado com freqüência. No Egito, a estrela do Dragão (depois, a estrela Polar) é a origem da conexão de quase todos os deuses com o Dragão.
Bel e o Dragão, Apolo e Píton, Osíris e Tufão, Krishna e Kâliya, Sigurd e Fafnir, e finalmente São Jorge e o Dragão, significam o mesmo. Todos eles eram deuses solares e, em qualquer lugar que encontremos o Sol, lá também está o Dragão, símbolo de sabedoria e poder.
Os hierofantes do Egito e da Babilônia se intitulavam “Filhos do Deus-Serpente” e “Filhos do Dragão”. Tanto a Serpente como o Dragão eram símbolos da sabedoria, da imortalidade e do renascimento.
Na Bíblia, no Apocalipse, aparece um grande dragão de cor avermelhada, com sete cabeças e dez chifres, que foi vencido por São Miguel e seus anjos.
Filostrato, autor do século II D.C., em seu livro “A vida de Apolônio de Tiana”, descreve ao dragão como um animal fabuloso, recoberto de escamas de ouro.
Numerosos foram os heróis, tanto da era cristã como anteriores a ela, que mataram dragões e, por conseguinte, foram considerados protetores do bem. Entre eles citaremos Anúbis, Apolo, Perseu, Hércules, Jasão, São Jorge, São Miguel, São Júlio, São Leão, São Clemente e outros.

São Jorge e o dragão
Existem diferentes versões das façanhas de São Jorge, que viveu na Palestina no século III e, supostamente, padeceu pouco antes do advento do imperador Constantino. No Dicionário Histórico dos Santos de John Coulson, encontra-se a versão considerada oficial:
Jorge, um cavalheiro cristão, chega à cidade de Sileno, na Lídia, na qual um terrível dragão faz reinar a desolação. Os habitantes se viram obrigados a escolher entre eles mesmos os que serviriam de sacrifício ao monstro. Inclusive a própria filha do rei tinha que ser imolada, mas então apareceu Jorge, que atacou e reduziu o monstro. E a princesa, passando pelo seu pescoço um cinturão como uma corrente, conduziu-o à cidade. Lá, Jorge consentiu em matar ao dragão, com a condição de que os habitantes recebessem o batismo. Segundo autores mais recentes, São Jorge se casou com a princesa.
Em outro relato, conta-se que na França, no castelo de Vangrenens, vivia uma dama muito bela, mas de escassa virtude. Como castigo, foi transformada em um basilisco, espécie de dragão, e causou estragos na região. O basilisco é uma espécie de ave-réptil particularmente danoso. Este monstro é gerado por um ovo de galo, colocado no esterco e incubado por um sapo. O basilisco destrói tudo que toca e suas picadas são venenosas. O filho da pervertida dama, Jorge, um piedoso cavalheiro, decide libertar a região do terrível animal. Ele o mata e esmaga sob as patas de seu cavalo, mas imediatamente depois é presa de tristeza e de remorso. São Miguel diz-lhe que deve ser castigado por ter matado a sua própria mãe.
Que seja queimado e suas cinzas dispersadas pelo vento… Jorge morre valorosamente na fogueira. Mas suas cinzas, ao invés de voar ao azar, caem novamente à terra em um montinho. Uma moça as recolhe. Em um lugar próximo pega uma maçã e a come. Nove meses depois ela dá a luz a um belo menino, que anunciou: Meu nome é Jorge, nasci nesta terra pela segunda vez…
O Papa Jõao XXIII decidiu suprimir o Jorge do calendário litúrgico cristão.

O dragão na Idade Média
Na Idade Média, os dragões são os guardiões de grutas encantadas, de palácios ou de tesouros fabulosos e, para conquistar estes tesouros, os cavalheiros eram obrigados a combater tais monstros. Assim também era para ganhar o coração de uma bela princesa. Percival, Siegfried e tantos outros heróis legendários foram os adversários, triunfantes, de terríveis animais. Siegfried mata um dragão e esfrega o corpo no sangue do mesmo, o qual serve-lhe de armadura.
No Extremo Oriente os dragões costumam guardar a entrada dos palácios santuários. Encontram-se figuras de dragões tanto nos primeiros baixos-relevos da arte românica, como na estatuária das catedrais góticas e nos afrescos do Renascimento. Inclusive, no século XVII, um pintor como Rubens utilizou este tema para suas telas.
Ao mesmo tempo, multiplicam-se os dragões nas lendas e nos contos de fadas, nos quais servem freqüentemente de montaria para feiticeiros e outros personagens maléficos. Conta-se que o doutor Fausto, depois de ter vendido sua alma ao diabo, foi arrastado ao inferno por dois destes animais quando soou a hora em que seu espantoso pacto terminou. Em resumo, estes monstros povoavam a imaginação popular e, não havia uma cidade européia povoada que não tivesse seu próprio dragão.
Para citar um exemplo, podemos falar da “tarasca”, monstro que deve seu nome à cidade de Tarascon. Diz a lenda que entre o Avignon e Arlés, ao pé de um enorme penhasco que domina o Ródano, reinava um dragão que matava a todas as pessoas que passavam por ali, além de mergulhar-se no rio para fazer naufragar os navios e devorar os seus ocupantes. Sua guarida estava em uma gruta inacessível, debaixo do castelo de Tarascon. Este ser tinha cabeça de leão, crinas de cavalo, corpo de touro, cauda de serpente e seis patas com garras de urso; com uma carapaça de tartaruga e uma crista de arestas cortantes.
Quem podia vencer tal Monstro? Um simples mortal não, certamente. Nos primeiros séculos do Cristianismo só poderia ser um santo e, neste caso, Santa Marta, irmã de Maria Madalena.
Dizem que foi à Provença para combater o paganismo na região. O povo de Tarascon pediu-lhe que vencesse o dragão; Santa Marta foi ao seu encontro. O dragão estava no bosque, devorando uma de suas vítimas. Ela avançou para cima dele com uma cruz de madeira e lhe benzeu com água benta, isso o deixou manso como um cordeiro. Levou o dragão ao povo e os tarasconenses lhe dividiram em pedaços, sendo depois batizados em massa por esta Santa.

O dragão e a alquimia
O Dragão está intimamente relacionado com a Alquimia. O dragão que morde a própria cauda representa a força natural, reprimida e latente, a contrapartida da águia, o espírito liberando-se. Quando aparecem casais de dragões entrelaçados representam as duas forças psíquicas elementares em estado primário e caótico, e correspondem de certa forma ao caduceu.
O dragão de Ouroboro é símbolo da natureza encadeada, da matéria sem forma. Quando não se possuem as armas luminosas, as únicas que podem vencer o terrível dragão que guarda o velocino de ouro, o homem pode ser devorado por essas forças da Natureza que guardam o ouro da alma.
A Natureza é também o mar imenso para o qual saíram os argonautas; aqueles que observam com rigor as leis da Natureza podem obter o prezado velocino de ouro que Medéia lhes entregará. Esta é a representação da Natureza que, desobedecendo às ordens de seu sombrio pai e com grande irritação do surpreso dragão, entregou o velocino de ouro.
Para a Alquimia, as duas forças representadas pelas serpentes ou dragões são o enxofre e o mercúrio. Às vezes um dos dois répteis representa o enxofre; e o mercúrio é alado e o enxofre não; ou em lugar de dois répteis, lutam entre si um leão e um dragão. A ausência das asas sugere o caráter de “sólido” do enxofre, enquanto que o animal alado, seja o dragão, grifo ou águia, representa o “volátil” mercúrio.
O dragão pode representar por si só todas as etapas da obra, conforme apareça: com patas, com barbatanas, com asas ou sem nenhum destes apêndices; pode habitar na água, na terra ou no ar e, em forma de salamandra, inclusive no fogo.
O símbolo oriental do dragão vive primeiro na água, em forma de ser aquático, para logo, elevar-se ao céu como animal alado. Lembra-nos também o mito tolteca do Quetzalcóatl, a serpente emplumada que se move sucessivamente sob a terra, na superfície e no ar.
O Dragão é um dos símbolos mais multifacetados representados ao longo de toda a história da humanidade e, é o animal mais complexo que a imaginação humana já criou.

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